O trabalho desenvolvido pelo Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) vem contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade marinha no Litoral Norte de Santa Catarina. Atuando na região há cerca de uma década, a iniciativa é conhecida principalmente pelo resgate de animais como golfinhos e baleias, mas também já identificou diversas espécies de aves raras ou pouco registradas no Estado.
Mesmo quando encontradas já sem vida, essas ocorrências são importantes para os estudos científicos. Os registros permitem compreender melhor a presença e a distribuição dessas espécies no litoral catarinense e ajudam a orientar ações de conservação ambiental.

Segundo a coordenação local do projeto, os dados coletados ao longo dos anos fortalecem tanto a pesquisa científica quanto a gestão ambiental, ampliando a compreensão sobre os ecossistemas costeiros e marinhos da região.
Espécies registradas na última década
Entre as aves identificadas durante o monitoramento estão espécies oceânicas raramente registradas em Santa Catarina.
Faigão-rola – registro em 2016
A faigão-rola (Pachyptila desolata) foi localizada em maio de 2016 na Praia Grande/Ervino, em São Francisco do Sul. O animal media cerca de 28 centímetros e foi encontrado já em avançado estado de decomposição. A espécie é considerada de baixa preocupação em termos de conservação.
Uma característica curiosa dessa ave é sua forma de alimentação. Conhecida como hidroplanagem, a técnica consiste em deslizar sobre a superfície do mar enquanto mergulha parcialmente a cabeça, filtrando pequenos crustáceos com o bico.
Petrel-azul – primeiro registro em SC em 2018
Outro registro importante ocorreu em 28 de janeiro de 2018, também na Praia Grande/Ervino. Na ocasião foi identificado um petrel-azul (Halobaena caerulea), espécie oceânica que mede entre 26 e 32 centímetros, podendo atingir 70 centímetros de envergadura.
O animal foi encontrado ainda vivo, mas acabou não resistindo aos ferimentos. A ave possui capuz escuro, bico fino e uma faixa branca característica na cauda.
Cagarra-de-cabo-verde – registro em 2021
Em 30 de maio de 2021, pesquisadores localizaram uma cagarra-de-cabo-verde (Calonectris edwardsii) na mesma região de praia em São Francisco do Sul. A espécie, considerada quase ameaçada, mede entre 42 e 47 centímetros.
Sua reprodução ocorre em colônias no arquipélago de Cabo Verde, onde as fêmeas colocam apenas um ovo por ciclo reprodutivo.
Trinta-réis-ártico – migrante de longa distância
Outro caso registrado foi o do trinta-réis-ártico (Sterna paradisaea), encontrado em 19 de outubro de 2021 na Vila da Glória, também em São Francisco do Sul.
Essa espécie é conhecida por realizar uma das migrações mais longas do planeta, viajando do Ártico até a Antártica e retornando todos os anos. Durante essas jornadas, pode percorrer cerca de 40 mil quilômetros.
Atobá-mascarado – ocorrência na Baía Babitonga
Em 6 de janeiro de 2022, um atobá-mascarado (Sula dactylatra) foi localizado na Baía Babitonga. O animal havia sido encontrado dentro de uma embarcação com fratura no bico e não resistiu aos ferimentos.
Essa ave pode atingir até 85 centímetros de comprimento e se alimenta mergulhando em direção às presas durante o voo.
Rabo-de-palha-de-cauda-vermelha – registro em Itapoá
Em 22 de agosto de 2025, um rabo-de-palha-de-cauda-vermelha (Phaethon rubricauda) foi encontrado na Barra do Saí, em Itapoá. A espécie já havia sido registrada pela primeira vez em Santa Catarina em 2022.
A ave pode chegar a 81 centímetros de comprimento e apresenta envergadura entre 104 e 119 centímetros. Sua alimentação inclui peixes voadores, lulas e crustáceos.
Petrel-mergulhador-comum – registro inédito no Brasil
Outro destaque foi o registro do petrel-mergulhador-comum (Pelecanoides urinatrix), encontrado em 26 de setembro de 2025 na Praia Grande, em São Francisco do Sul.
Esse foi o primeiro registro da espécie em todo o Brasil. Apesar da importância científica, o animal também já estava em estado avançado de decomposição.
Identificação das espécies
Quando as aves são encontradas em condições que dificultam a identificação visual, os pesquisadores recorrem a análises genéticas.
O procedimento inclui a coleta de amostras de pele e tecido muscular, que são encaminhadas para um laboratório especializado. A identificação ocorre por meio do sequenciamento genético e comparação com bancos de dados internacionais, como o BOLD Systems (Barcode of Life Data Systems).
Essas informações permitem confirmar a espécie com maior precisão e contribuem para estudos sobre padrões de ocorrência e encalhe de aves marinhas.
Projeto é exigência ambiental
O Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) é desenvolvido como parte das exigências do licenciamento ambiental conduzido pelo Ibama para as atividades da Petrobras relacionadas à produção e ao escoamento de petróleo e gás natural na Bacia de Santos.
Além do resgate de animais e da coleta de dados científicos, o trabalho ajuda a ampliar o conhecimento sobre a fauna marinha e costeira do litoral brasileiro.
