Aos 29 anos, Fernanda Honorata carrega uma trajetória marcada por dor, resistência e superação. Natural de Rondonópolis (MT), ela cresceu em meio à violência doméstica. Via a mãe sofrer agressões físicas do pai e acreditou que, após o divórcio deles, enfim viriam dias de paz.
No entanto, a mãe de Fernanda iniciou um novo relacionamento, que terminou de forma trágica: ela foi morta pelo companheiro. “Lembro do velório como se fosse hoje. O único lugar que me dava algum alívio era a sala de dança”, relembra Fernanda.

Com apenas 11 anos, Fernanda encontrou no ballet, iniciado em um projeto social da Fundação André e Lúcia Maggi, a força para seguir em frente. Mesmo dispensada das atividades, poucos dias após a tragédia decidiu voltar às aulas, transformando a dor em arte e determinação.
Fernanda sabe que sua história não é isolada. De acordo com pesquisa do Instituto Igarapé (2020), sete em cada dez vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras. Ao compartilhar sua trajetória, ela busca não apenas inspirar, mas também provocar reflexões e ações: “Meus traumas não precisam ser os traumas de outras mulheres. Nós podemos fazer a diferença”, ressalta.
Formada pela Escola Bolshoi e graduada em Educação Física, Fernanda construiu sua trajetória profissional como professora de dança em Joinville e, atualmente, integra a equipe da Cia JK, em Itapoá, ao lado do amigo de infância e colega de formação, Jasson Kerkhoven.
Juntos, eles utilizam a dança para formar crianças e adolescentes não apenas no aspecto técnico, mas também como cidadãos conscientes, promovendo equidade, debates sobre racismo, inteligência emocional e reflexões sobre privilégios.
“É gratificante ver o brilho nos olhos dessas crianças. A arte que salvou a minha vida hoje é o que me permite inspirá-las”, afirma Fernanda.
A trajetória de Fernanda, marcada pela superação da violência doméstica e pelo enfrentamento do racismo, se entrelaça ao compromisso social de Jasson e da Cia JK.

No palco e fora dele, a dupla reforça todos os dias que a dança pode ser um caminho para romper ciclos de desigualdade e violência, além de promover equidade e despertar a cidadania.
