Violência doméstica: quando o silêncio também machuca

A violência doméstica é um problema grave e persistente na sociedade. Não faz distinção de classe social, idade ou cor da pele. Muitas vezes acontece em silêncio, dentro de casa, e transforma o lar, que deveria ser um espaço de segurança e afeto, em cenário de medo, dor e sofrimento.

Os dados mais recentes do Observatório da Violência Contra a Mulher em Santa Catarina revelam a dimensão desse problema. Entre 2020 e 2024, foram registrados mais de 364 mil casos de violência contra a mulher, abrangendo situações que vão de ameaças a estupros e feminicídios.

Em 2023, o estado registrou o pico de 79,1 mil casos. Mesmo com uma leve queda em 2024, o número permaneceu em um patamar alarmante. Apenas nos primeiros sete meses de 2025 já foram contabilizadas 42,4 mil ocorrências, o que indica que este ano pode repetir os índices mais altos da série histórica.

Violência doméstica
Em 2025, já são 42,4 mil casos registrados até julho, indicando que o ano pode repetir os índices mais altos da série histórica.

Por trás das estatísticas estão rostos e vidas interrompidas. O perfil das vítimas é formado, em sua maioria, por mulheres entre 20 e 40 anos, em plena fase produtiva da vida. As formas mais recorrentes de agressão são as ameaças e as lesões corporais, que somaram juntas mais de 250 mil registros no período de 2020 a 2024. Na maior parte dos casos, esse ciclo de violência ocorre dentro do próprio lar.

O dado mais extremo dessa realidade é o feminicídio. Entre 2020 e 2024, 277 mulheres foram assassinadas em Santa Catarina. Somente entre janeiro e julho de 2025, já são 26 casos, a maioria cometida por parceiros ou ex-parceiros, principalmente com o uso de armas brancas, como facas e outros objetos cortantes. Em Itapoá, embora não tenha havido registros em 2025, o município não está imune: entre 2020 e 2024 houve um caso, no qual a vítima foi morta pelo próprio irmão.

O panorama local mostra que essa não é uma violência restrita às grandes cidades. Em Itapoá, entre 2020 e 2024, foram registrados 1.712 casos de violência contra a mulher, incluindo 741 ameaças e 445 lesões corporais. Somente nos primeiros sete meses de 2025, já houve 298 ocorrências, com maior concentração em janeiro e fevereiro. Os números evidenciam que, mesmo em municípios de menor porte, a violência está presente em todas as regiões do território.

Esses dados revelam a contradição de uma sociedade que declara valorizar a família, mas ainda permite que tantas mulheres sejam violentadas dentro de casa. As vítimas, em sua maioria, convivem não apenas com a agressão física, mas também com a psicológica, a sexual e a patrimonial, que ocorre quando o agressor controla ou destrói os bens da vítima para manter a dependência. 

O silêncio, motivado pelo medo, pela dependência financeira ou pela vergonha, não traz proteção: apenas prolonga a dor e fortalece o agressor.

Enfrentar essa realidade exige mais do que indignação: exige ação. A legislação brasileira, por meio da Lei Maria da Penha e da tipificação do feminicídio, ou seja, o reconhecimento legal desse crime como uma categoria específica, estabeleceu instrumentos de proteção. O Disque 180 e as delegacias especializadas são canais fundamentais para denúncias.

Além disso, os moradores de Itapoá contam com o aplicativo PMSC Cidadão, que permite solicitar ajuda diretamente pelo celular. Nesse caso, o chamado vai direto para a Polícia Militar de Itapoá, garantindo resposta mais rápida. 

Já as ligações telefônicas geralmente são atendidas primeiro pela Polícia Militar de Joinville, que depois repassa para Itapoá, o que pode atrasar o atendimento. É importante destacar que, para acessar o aplicativo, o login deve ser feito com um e-mail do Gmail, já que as contas de outros provedores não funcionam corretamente.

E o que cada um de nós pode fazer diante dessa realidade? É preciso escutar sem julgar, apoiar sem hesitar, orientar sobre os canais de ajuda e, acima de tudo, denunciar. Um gesto de vizinho, amigo ou familiar pode representar a diferença entre a vida e a morte de uma vítima. A omissão, por outro lado, apenas perpetua o ciclo da violência.

Agosto Lilás
Escutar, apoiar e denunciar podem salvar vidas; a omissão só perpetua a violência

A violência doméstica não pode ser tolerada, relativizada ou escondida. É hora de transformar a dor em luta e a indignação em mobilização. Que cada voz erguida contra a violência represente um passo a mais para devolver ao lar o seu verdadeiro significado: um espaço de amor, proteção e vida plena.