Pode parecer simples, mas não é. Enfrentar a violência doméstica é um desafio complexo, doloroso e cansativo. E, acima de tudo, é necessário.
O convite é para uma reflexão: quantas pessoas você conhece que já foram ou ainda são vítimas desse tipo de violência?
E não se trata apenas de tapas, socos ou chutes. A violência também se manifesta em humilhações, xingamentos, ameaças, isolamento, manipulação, críticas constantes e controle econômico.
Infelizmente, esse número só cresce, entre avós, tias, primas, amigas e colegas de trabalho.
O ciclo da violência
A violência doméstica não é um fato isolado. Ela ocorre em ciclos repetitivos, descritos pela psicóloga Lenore Walker, que dificultam a saída da vítima da relação abusiva. Esse ciclo costuma passar por três fases:
1. Fase da Tensão
O agressor demonstra irritação, ciúmes, cobranças e silêncios hostis. A vítima tenta “pisar em ovos”, evitando conflitos e buscando agradar.
Exemplo: “Se eu fizer tudo certo, talvez ele não exploda.”
2. Fase da Explosão ou Agressão
É o momento da agressão, que pode ser física, psicológica, sexual, moral ou patrimonial.
Exemplo: ele grita, empurra, bate, ameaça ou força relações sexuais.
3. Fase da Lua de Mel ou Arrependimento
O agressor pede desculpas, promete mudar, dá presentes. A vítima acredita que foi um caso isolado.
Exemplo: “Ele me ama, só perdeu o controle. Vai mudar desta vez.”
Com o tempo, a fase de arrependimento se torna cada vez mais curta, enquanto as agressões ficam mais frequentes e intensas.

Por que é tão difícil sair?
Muitas vezes, a sociedade pergunta “por que ela ficou?”. A pergunta correta é: “por que ele a agrediu?”.
A vítima permanece no ciclo por medo, dependência emocional ou financeira, esperança de mudança, vergonha, culpa ou falta de apoio. Em muitos casos, não conhece seus direitos ou não sabe onde buscar ajuda.
Como romper o ciclo
Romper esse ciclo começa pela informação: conhecer os tipos de violência e identificar os sinais. Buscar apoio emocional e jurídico é essencial, assim como contar com redes de apoio, como amigos, familiares e profissionais.
E, sobretudo, procurar ajuda: ligue 180 ou vá até a Delegacia da Mulher mais próxima.
Por que é difícil deixar de ser vítima de violência doméstica?
Muitas vezes, a sociedade julga a mulher por “ficar”, mas é importante lembrar que a culpa nunca é da vítima, e sim do agressor.
Principais razões que dificultam a saída da violência doméstica:
- Medo: ameaças do agressor, como “se você me deixar, eu te mato” ou “vou tirar seus filhos”. Também o medo de ficar sem proteção, sem casa e desamparada.
- Dependência emocional: a vítima acredita que o agressor ainda a ama. O laço é reforçado pela fase da “lua de mel”, que alimenta a esperança de mudança.
- Dependência financeira: muitas não têm renda própria, têm filhos e não sabem como sustentá-los, enquanto o agressor controla todo o dinheiro.
- Ciclo da violência: a repetição das fases gera esperança de mudança e mantém a vítima emocionalmente presa.
- Preocupação com os filhos: medo de perder a guarda ou de criá-los sozinha, além do desejo de manter a “família unida”.
- Vergonha ou culpa: a vítima sente vergonha do que vive, acredita ser culpada e teme julgamentos da sociedade, da família ou da igreja.
- Isolamento: o agressor afasta a vítima de amigos e familiares, deixando-a sozinha, sem apoio e sem lugar para ir.
- Baixa autoestima: após anos de abuso, passa a acreditar que não consegue viver sem o agressor. Frases como “ninguém vai te querer” ou “você não vale nada” minam sua confiança.
- Falta de informação ou acesso a ajuda: muitas não sabem que vivem uma situação de violência, desconhecem seus direitos ou os serviços disponíveis, como o 180. Em cidades pequenas, pode faltar estrutura de apoio.
Lembre-se: a responsabilidade nunca é da vítima. Em vez de questionar “por que ela ficou?”, a reflexão correta é “por que ele a agrediu?” e “o que podemos fazer para protegê-la?”.
A Rede Catarina de Proteção à Mulher, programa institucional da Polícia Militar de Santa Catarina, atua justamente nesse propósito, com foco na prevenção da violência doméstica e familiar contra a mulher.

Rede Catarina: proteção em ação
Em Santa Catarina, a Rede Catarina de Proteção à Mulher, programa institucional da Polícia Militar, atua na prevenção da violência doméstica e familiar.
Mais do que fiscalizar medidas protetivas, a Rede Catarina oferece voz, dignidade e segurança às mulheres.
Entre suas ações estão:
- Proteção direta às vítimas
- Fortalecimento do vínculo entre cidadã e Polícia Militar
- Efetividade das medidas protetivas
- Inovação tecnológica com aplicativo próprio que disponibiliza o botão do pânico. Agilidade na comunicação com Ministério Público e Poder Judiciário.
- Valoriza o trabalho policial
- Garante igualdade de gênero
- Oferece atendimento qualificado e rápido
Como funciona a metodologia?
Uma das etapas é a Reunião de Sensibilização, momento em que o programa é apresentado às autoridades locais e seus objetivos são explicados.
A metodologia também inclui a criação de uma Rede de Comunicação, que envolve diferentes instituições como Justiça, Ministério Público, Polícia Civil, Conselho Tutelar, Assistência Social e Casas Abrigo.
Outro pilar é a Governança, baseada em reuniões frequentes, parcerias e ações integradas que buscam garantir proteção e resposta rápida às mulheres em situação de risco.
O programa ainda aposta na inovação tecnológica, com um aplicativo próprio da Polícia Militar de Santa Catarina.
A Rede Catarina representa mais do que proteção. É cuidado, ação rápida e respeito às mulheres.
Cabo PM Danieli Cristina Soares
