Pesquisa da UFSC alerta para risco de extinção de árvores exclusivas de Santa Catarina

Estudo aponta perda de habitat, baixa diversidade genética e mudanças climáticas como principais ameaças à flora endêmica do Estado

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) trouxe um alerta sobre a conservação da flora catarinense. A pesquisa indica que espécies de árvores encontradas exclusivamente em Santa Catarina enfrentam um elevado risco de desaparecer da natureza nas próximas décadas caso o atual cenário de degradação ambiental permaneça.

Análises de DNA e projeções climáticas revelam a vulnerabilidade de plantas que só existem em Santa Catarina e reforçam a necessidade de atualizar a lista estadual de espécies ameaçadas (Foto: UFSC, Divulgação)
Análises de DNA e projeções climáticas revelam a vulnerabilidade de plantas que só existem em Santa Catarina e reforçam a necessidade de atualizar a lista estadual de espécies ameaçadas (Foto: UFSC, Divulgação)

Entre os casos mais preocupantes está o da Myrcia joinvillensis (anteriormente identificada como Myrcia/Myrceugenia joinvillensis), espécie restrita a pequenas áreas da Serra do Mar, entre os municípios de Joinville, Garuva e Schroeder. De acordo com as projeções do estudo, ela poderá perder até 97% das áreas atualmente adequadas para sua sobrevivência até o fim deste século.

Segundo os pesquisadores, a combinação entre mudanças climáticas, fragmentação da Mata Atlântica e redução da variabilidade genética compromete a capacidade de adaptação dessas plantas às transformações ambientais.

Populações isoladas preocupam pesquisadores

As análises de DNA revelaram que as populações das espécies estudadas apresentam pouco intercâmbio genético entre si, consequência do isolamento provocado pela fragmentação das florestas. Esse cenário reduz a resistência natural das plantas a doenças, alterações ambientais e outros fatores que influenciam sua sobrevivência.

Além da distribuição extremamente restrita, a espécie ocorre apenas em altitudes entre 400 e 700 metros da Serra do Mar catarinense, o que torna ainda mais difícil sua adaptação às mudanças no clima.

A coordenadora da pesquisa, professora Mayara Krasinski Caddah, afirma que já são poucas as áreas que ainda oferecem condições favoráveis para a permanência dessas plantas.

Segundo ela, o caso não deve ser encarado como um episódio isolado, mas como um reflexo das pressões que vêm afetando diversas espécies nativas da Mata Atlântica.

Outras espécies também apresentam sinais de vulnerabilidade

O levantamento identificou que outras plantas exclusivas de Santa Catarina também enfrentam situação preocupante.

A Myrcia basicordata, encontrada apenas em Joinville, Garuva e São Francisco do Sul, apresenta baixa diversidade genética e poderá perder até 76% da área considerada adequada para sua ocorrência nas próximas décadas.

Já a Miconia ulei apresentou um cenário mais promissor. Apesar das ameaças, a espécie produz grande quantidade de sementes com elevada capacidade de germinação, característica que pode favorecer projetos de restauração ambiental e recuperação de áreas degradadas.

Lista de espécies ameaçadas precisa ser atualizada

Além da avaliação das espécies, os pesquisadores analisaram a lista oficial de plantas ameaçadas de extinção em Santa Catarina e concluíram que ela necessita de revisão.

Segundo o estudo, mais da metade dos nomes avaliados apresenta inconsistências, incluindo espécies que não ocorrem naturalmente no Estado, nomenclaturas desatualizadas e erros de classificação que podem comprometer as políticas públicas de conservação.

Durante a pesquisa, foram identificadas 30 espécies que deveriam integrar a lista estadual de ameaçadas, número seis vezes superior ao atualmente reconhecido para o grupo analisado.

Para os pesquisadores, a atualização dessas informações é essencial para direcionar ações de monitoramento, conservação e recuperação da biodiversidade catarinense, especialmente diante do avanço das mudanças climáticas e da contínua redução dos remanescentes da Mata Atlântica.